A criatura entra no ônibus já falando no celular. E passa a viagem toda assim. Quando finalmente resolve desligar a porcaria do telefone, o aparelho volta a tocar e...começa tudo de novo! Mais um capítulo da novela de sua vida que os passageiros terão de acompanhar. Involuntariamente.
Me pergunto, afinal de contas, que diabos é isso? Carência? Ansiedade? Porque não venham me dizer que ligar para uma amiga pra perguntar “E aí, como foi?” ou contar pra alguém o que aconteceu durante o seu dia é tão urgente que a pessoa não pode esperar chegar em casa para ligar e contar.
O xis da questão é que ninguém é obrigado a compartilhar detalhes - às vezes íntimos - da vida dos outros, ainda mais em locais públicos – principalmente nos transportes públicos. É um verdadeiro frisson de conectividade. (acho que se, por algum motivo, estas criaturas ficassem sem celular teriam de passar todas a freqüentar alguma espécie de CA / Conectados Anônimos para controlar suas crises de abstinência)
Outro exemplo que mostra como privacidade é coisa do passado são os reality shows. Fico realmente impressionada como as pessoas abrem suas vidas sem a menor cerimônia para as câmeras.. Os analistas, psiquiatras, psicólogos, terapeutas devem estar preocupadíssimos porque hoje a cidadão vai pra frente da câmera e, na maior, mostra o o quão baixa é a sua auto-estima ou como é péssimo o seu relacionamento em família . Ou até mesmo o quanto pode ser falso para conseguir o que quer.
Isso tudo por quê? Porque é melhor ser um problemático (ou polêmico) famoso do que um zé ninguém resolvido. O que mostra que a era em que todo mundo seria famoso por 5 minutos, conforme previu Andy Wharol, chegou. Qualquer ator da Globo ou jogador de futebol taí para provar o que eu digo. O fato de saírem para jantar num restaurante caro ou mudarem o corte de cabelo pode render manchete na primeira página em todos os jornais, porque hoje o negócio é falar sobre pessoas e não mais sobre ideias.
Uma pena.
